Valentim R. Fagim

22/12/2010

O espírito da maré

Filed under: Galicia Hoxe — valentimrfagim @ 6:31 PM

Na VIII ediçom de cantos na maré, o público, que abarrotou o paço de Ponte Vedra, pudo ouvir muitos sabores da nossa língua, sabores do Alentejo, da Luanda, de Pernambuco, de Mós e de Cedeira. Mas nom só ouviu como também entendeu e comunicou num evento que, para além do Padornelo, nom podia alcançar nunca a mesma química entre o palco e a plateia. Galiza, sítio distinto.

A maré trouxo-nos Aline Frazão, que cantou Maria Silêncio, o tema com que ganhou o concurso Musicando Carvalho Calero, a quem homenageou no evento arrancando o aplauso do público. A maré trouxo também a loucura de Lenine e o veludo de António Zambujo, loucura aveludada que nos pujo a pele de pita.

E as anfitrioas que lhes abriram o coraçom da Galiza, que lhes mostraram outra visom do país através do sabor que nos une, fôrom as incansáveis Uxía Senlle e Guadi Galego. A cantora de Mós deu-nos a maravilhosa notícia de que a próxima maré podia chegar ao Brasil e evidenciar-se assim que nom se trata apenas de importar sabores como também de levar o nosso gostinho para outros cantos do nosso planeta cultural. Eu ganho, tu ganhas, nós ganhamos.

Trata-se agora de que esta experiência aumente de escala e que todos os galegos e as galegas podam descobrir e podam gozar da internacionalidade da nossa cultura e da nossa língua. Fazemos votos para que na próxima ediçom, o evento nom seja radiado apenas por RNE como também o seja pola nossa RG.

http://www.galiciahoxe.com/portada/gh/espirito-da-mare/idEdicion-2010-12-21/idNoticia-622786/

Anúncios

15/12/2010

O que nos une

Filed under: Galicia Hoxe — valentimrfagim @ 11:36 AM

Vivemos num país com duas línguas e isto implica umha gestom. Se revisamos a internet e as hemerotecas logo nos apercebemos que nem todas as pessoas têm a mesma perspectiva de como deve ser gerida linguisticamente a Galiza. Ora, seria importante arranhar debaixo de tantos pareceres diferentes e procurar o que une o maior número de pessoas a fim de elaborarmos estratégias conjuntas.

Para já, a maioria de nós queremos que a sociedade poda usufruir ambas as línguas e que ambas o sejam na maior medida possível. Nom queremos, enfim, analfabetos numha das línguas ou, pior, estrangeiros a viverem como se nom existissem. Esta perspetiva podia ser um bom ponto de partida.

A respeito da identidade do castelhano existe um consenso absoluto mas a respeito da que uso neste artigo nom é assim. Há pessoas que vivem o galego como sendo património exclusivo dos habitantes da Galiza e outras, como a que escreve, que a vivem como sendo umha língua internacional que nos liga a outros países e continentes, o galego extenso e útil que proclamava Castelao. Nada indica que este dissenso venha a se diluir nos próximos anos, nem é preciso que o faga, todos e todas podemos conviver desde que haja vontade de nos reconhecer mutuamente.

Onde sim existe um alto consenso é na necessidade de aproveitar a vantagem competitiva que os galegos e as galegas temos relativamente ao português de Portugal, do Brasil ou de Angola. A respeito das restantes autonomias, a respeito, até, do resto da Europa, a nossa realidade linguística torna-nos umha singularidade podendo ser o único país no mundo que usufruísse o universo de expressom castelhana e o universo de expressom portuguesa.

Nesta linha têm-se manifestado pessoas do mais variado teor político. O que resta agora é passar das palavras aos factos, o que nem sempre é fácil. Falar exige menos esforço que fazer. Recentemente, no Parlamento Europeu, a deputada Ana Miranda frisou a falta de vontade política para a cidadania galega poder desfrutar das televisões de Portugal apesar de existirem convénios europeus que caminham nesse sentido. No terreno do ensino, perdemos com todas as autonomias que têm fronteira com Portugal no que diz respeito da criaçom de vagas de português no secundário. Temos zero, portanto só podemos aspirar a empatar.

Ensino e Mass Média som, portanto, duas linhas de trabalho que atingem um amplo consenso e que só nos podem trazer riqueza. Dizia Eça de Queirós aquilo de: o governo tolera mas nem sempre promove. De promover é que se trata.

http://www.galiciahoxe.com/opinion/gh/une/idEdicion-2010-12-15/idNoticia-620905/

14/11/2010

Con el gallego, zafo

Filed under: Galicia Hoxe — valentimrfagim @ 11:57 PM

José, nome imaginário, é um técnico de uma empresa construtora galega. José foi sempre castelhano-falante e um amigo comum afirma que nunca o tem ouvido falar em galego, não sendo uma frase ou uma palavra isolada. Esta empresa tem vários contratos em Angola, país africano que, nomeadamente graças ao petróleo, tornou-se num país atrativo para o empresariado. José vai e vem a Angola várias vezes ao ano onde tem que tratar com diferentes pessoas. Um dia, o amigo comum a ambos, sabedor do seu monolinguismo sistemático, perguntou-lhe: e em que língua falas com os angolanos? A resposta foi: con el gallego, zafo.

Azilag, nome imaginário, é um país que tem duas línguas. As duas são internacionais o que, a priori, é uma riqueza magnífica se sabe administrar bem. Dá-se mesmo a circunstância feliz de ser o único país do mundo onde estas línguas estão presentes socialmente. No entanto, nenhum dos seus governos foi capaz de administrar bem este facto e os cidadãos e as cidadãs nem conhecem nem usufruem esta riqueza porque apenas uma das línguas foi aproveitada na sua totalidade. A outra dá apenas para safar.

Recentemente, no Consello da Cultura Galega, a presidenta do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, interagiu com pessoas relevantes da cultura galega. Um dos temas a tratar foi o ensino da língua portuguesa no sistema educativo galego. Filipe Presa, presidente de Docentes de Português na Galiza, informou que atualmente há 25 centros onde se ensina, de um total de 346. Para além de serem mui poucos, a estrutura é mui frágil pois não existem vagas específicas, sendo docentes de outras matérias, com a melhor das intenções e sem serem fornecidos com os recursos precisos, os que lecionam língua portuguesa. O professor Filipe usou uma imagem muito esclarecedora para ilustrar esta estrutura: uma torre de cartas.

Era bom sermos mais inteligentes que em Azilag. O ensino de português nos centros educativos é um oportunidade imelhorável.

Publicado no Galicia Hoxe, a 13 de novembro de 2010.
http://www.galiciahoxe.com/portada/gh/gallego-zafo/idEdicion-2010-11-13/idNoticia-610151/

Blog no WordPress.com.