Valentim R. Fagim

16/04/2009

O galego tem que ser difícil

Filed under: Em 2006,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:36 PM

“En la universidad las tesis deberían estar escritas en español o en un gallego susceptible de ser entendido, sin problemas, por un español-hablante”. Estas palavras foram proferidas por um jurado de uma tese de doutoramento redigida em “português” e vem a resumir, como poucos textos, o que o Statu Quo reserva para o “galego”: a dialectalização. Porque, afinal, só um dialecto se aprende numa semana como fixo em 1993 o jornalista espanhol Campo Vidal para gerir o debate eleitoral entre Fraga e Sánchez Presedo. E, pessoal, quando uma variedade se aprende a partir de uma outra no prazo de uma semana, aquela só tem um nome: dialecto.

É um facto que a população galega, em massa, fomos e somos alfabetizados e sociabilizados em espanhol. Isto fai com que as falas galegas estejam, já não só hibridizadas mas enquadradas nas coordenadas do espanhol. Aliás, a maioria dos discursos, falados e escritos, elaborados na Galiza som construídos a partir de esse modelo de língua, salpimentado melhor ou pior de galeguidade.

Neste terreno as elites nacionais galegas não se tenhem destacado nem por uma abordagem profunda nem por uma prática consequente. E uma elite que pretende contestar o Statu Quo tem que mostrar um comportamento e um via original. Não sendo assim, constatam que só aspiram a um pouco de sombra. Porque a questão não é que a nossa Língua tenha que ser difícil mas que tem de sê-Lo.

Setembro 2006

Obrig-

Filed under: Em 2006,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:33 PM

Ultimamente, espoletados pola reforma do estatuto, os média galegos estão a falar da nossa língua. Em LVG líamos em grandes letras “La Xunta avala que el nuevo Estatuto obligue a conocer la lengua gallega”. Manchetes similares aparecem noutros jornais e o lexema OBRIG- costuma fazer parte deles. A verdade é que este lexema não é lá muito simpático e os jornalistas sabem-no. Se o cabeçalho fosse estoutro: “ La Xunta avala que en el nuevo estatuto gallego y castellano se equiparen” o pessoal que lesse a notícia podia até simpatizar com a medida. Ora, não é essa a intenção.

Provavelmente quem ler o Novas não se deixe enganar mas, como podemos explicar isto às pessoas molestas com o lexema OBRIG-? Como podemos fazer-nos entender se o tema surgir num encontro familiar, no café depois do trabalho ou na ceia de ex-alunos e alunas? A meu entender, a um lexema assim há que opor outro similar em força simbólica. Por exemplo JUST-. Ninguém gosta de os seus seres queridos terem menos direitos do que um mesmo; é INJUST-. Aliás, a única forma de não ter que ouvir numa agência de alugueres, num McDonalds ou num balcão de Caixanova: “Aquí en español. Yo no tengo porque saber gallego” é que tenha a OBRIG- de o saber. Porque, insisto, nem o nosso irmão, nem a colega de trabalho, nem a nossa companheira no liceu se vai sentir cómoda sabendo que ela tem mais direitos do que nós polo facto de falarmos línguas diferentes. Afinal, se duas línguas, (ou duas raças, ou dous géneros) têm uma categoria jurídica diferente, as pessoas que as falam também. Portanto, que o galego seja OBRIG- é questão de JUST-

Maio de 2006

É mudar de piscina

Filed under: Em 2006,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:33 PM

A maioria das pessoas que estão a ler este artigo, bem como o autor, foram sociabilizadas para resultar em cidadão espanhol. Sendo assim, a nossa saída do útero é para um útero maior, uma enorme piscina, onde desenvolver o nosso ser. Neste espaço aquático acedemos ao conhecimento da “nossa” e de outras culturas, dos seus autores/as, da história, da técnica, desenvolvemos a nossa criatividade… e tudo isto vem a ser feito na mesma piscina onde respiram e nadam pessoas de Logronho ou de Sevilha. No aspecto prático isto passa polas nossas leituras, os nossos filmes, o nosso computador, o acesso à rede, o que sabemos, o que queremos saber.

O bom das piscinas é que se pode sair delas. E olhar em volta de um. E se o olhar for limpo até se pode encontrar uma piscina mais acaída. A nossa fortuna, como galegos e galegas, é que essa piscina está já criada. A nossa desvantagem é que respiramos durante tanto tempo em uma outra, fomos tão teimosamente persuadidos de que essa outra era a nosso espaço natural que saltar fora da água é, na verdade, um desafio sério.

E no entanto, na Galiza, no plano linguístico e cultural nada existe mais revolucionário do que mudar de piscina. Nenhuma proclama, nenhuma denúncia, nenhuma sabotagem, se aproxima sequer do facto de abandonar o que nos reservaram e mergulhar no que escolhemos. E isto pode ser feito por qualquer um/a de nós. Palavra.

Julho de 2006

São as pessoas, porra!

Filed under: Em 2006,Língua Nacional — valentimrfagim @ 1:08 AM

A palavra Língua bem como Nação e ainda outras tenhem uma carga de abstracção que fai com que por vezes perdamos o sentido da realidade. E o que é a realidade? Um cidadão galego quer tirar a carta de condução e o exame está em espanhol; a diferença da maioria dos seus conterrâneos, nega-se a fazer a prova. No Flandres várias câmaras municipais exigem às pessoas candidatas a uma vivenda de protecção oficial saberem holandês (200 anos atrás o “holandês” era uma língua estrangeira). Em Bruxelas, por questões de poupança, decidem eliminar várias línguas dos serviços de tradução nas conferências de imprensa, entre elas o espanhol. O governo do Reino reage e protesta usando os mesmos argumentos que os nacionalismos subestatais.

Ora, persistem discursos esquisitos a respeito da Língua. Alguém escreve que duas línguas eram a mesma até que se “separaram” (como se se tratasse de um protozoário). Outro afirma que a língua X está a “devorar” a língua Y e até dá pormenores do processo de digestão. Há também quem diz que uma língua se está “desenraizando” e não falta quem afirme que uma língua é “irmã” de outra, prima de uma terceira e neta de uma quarta criando árvores genealógicas de coerência difícil.

Observando isto tudo acabamos por não saber se estamos perante uma análise sócio-linguística ou um documentário da National Geographic. São as pessoas, porra!

Dezembro de 2006

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