Valentim R. Fagim

16/04/2009

Bolsa de valores

Filed under: Em 2008,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:41 PM

No sec. XVIII todas as monarquias europeias falavam francês. Hoje, com a exceção de Zapatero e Berlusconi, todas as chefias de estado europeias falam inglês e só algumas se expressam em francês. Por outras palavras, o valor do francês e do inglês seguiu caminhos divergentes.

O valor em bolsa de uma língua descansa essencialmente no valor dos seus falantes e dos países que as falam. Neste sentido conta mais a qualidade do que a quantidade. Poucas pessoas no mundo sabem da existência do Bhojpuri (eu próprio nada sabia dele até escrever este artigo) embora seja falado por 126 milhões de pessoas na Índia.

Foros como o G-8 podem ser mais ilustrativos. Nele há três países anglófonos, o Canadá, os EUA e a GB, o que dá para ver porque o inglês é a língua não materna mais estudada.

Outro dado: a CPLP vai pedir para o português se tornar língua oficial da ONU. Por quê? Talvez por o Brasil ser um país Bric (Brasil-Rússia-Índia-China) e se tudo correr como os especialistas esperam que corra, as economias juntas destes países superarão, em menos de 40 anos, as do G-6 (os países mais industrializados hoje).

G-6, G-8, G-20… vamos deter-nos agora no GZ. Sabemos que o valor da nossa língua, aqui, não é muito alto. Afinal, não é falado polas pessoas que têm mais capital, seja este do tipo que for: dinheiro, fama, prestígio, poder. Perante isto, muitas vezes temos caído na ilusão de fazer de esta carência, virtude. Já sabedes como é o esquema: a língua asterix-obelix a resistir agora e sempre ao invasor. O problema é que em bastantes ocasiões o invasor nos mudou os cueiros, trabalha ao nosso lado e, em casos extremos, até dorme connosco.

Na verdade, a maioria das pessoas respondem a outros estímulos. Numa cidade galega, um desenhador gráfico recebe a visita do dono de um restaurante. Quer uma ementa em galego. Curioso, o desenhador pergunta o motivo, ao qual o cliente responde: o delegado de cultura vem comer habitualmente ao meu negócio.

Valeu? Valor.

Outubro 2008

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Como os catalães e os bascos

Filed under: Em 2008,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:27 PM

Catalunha e o País Basco, tal como a Europa, som além de uma realidade histórica, um espaço mítico. Assim, quando alguém fala “da Europa” não se está a referir a Grécia ou a Polónia. Da mesma forma quando se afirma que temos que fazer “como os catalães e os bascos”, ninguém está a pensar em Albert Boadella ou em Iñaki Urdangarin.

Ambas as nações são olhadas por nós com um misto de inveja e admiração: a sua mesma existência vem a ser afinal uma esperança para o nosso desespero. No entanto, e aqui erramos, não os observamos a olho nu, usamos lupa.

Esta lupa permite-nos ver e engrandecer o seu capital humano: os jornais que se criam num dia, selecções em competições internacionais, 66% de pais e mais a escolher ensino em euscara, o domínio CAT… mas não nos deixa ver o capital financeiro que está por trás (o que até é espantoso, porque não é pouco).

Isto é assim porque valorizamos o sacrifício, a militança e o voluntarismo. Reverenciamos Robin Hood quando na verdade as línguas (e as nações) precisam também do João sem Terra para assim alargar o seu capital.

Novas da Galiza, o jornal que tens entre as mãos, vai fazer no Outono uma ampliação de capital; para sermos um bocadinho mais “como os catalães e os bascos”.

Agosto de 2008

Língua visível do meu povo

Filed under: Em 2008,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:24 PM

Cena 1

Entramos no restaurante, pegamos na carta, lemos a ementa do dia e pedimos qualquer cousa que não aparece lá. O empregado olha-nos estranhado, apenas há 4 pratos para escolher, só um deles é peixe, portanto e sem demorar muito exclama: ah, merluza!

Cena 2

Vamos até um banco pedir um crédito. Falamos durante 15, 20 minutos com a directora, uma mulher agradável. Ao sair da sucursal reparamos nas palavras que deixaram de sair dos nossos lábios durante a conversa e sabemos que todas elas tenhem algo em comum.

Cena 3

Estamos na mercearia, está calor e o nosso corpo pede fruta fresca. Pedimos morangos e ameixas mas temos a precaução de assinalar com o dedo cada um dos nossos pedidos, e é só graças a isso que somos convenientemente servidos.

O que tenhem em comum as três cenas é a invisibilidade. Na década de 60 cantava o poeta aquilo de Língua Proletária do meu Povo. Cinquenta anos depois teima-se na cantiga quando na verdade era o momento de se passar para Língua Visível do meu Povo. Porque o que não se vê, não existe. Pior, não dá para reclamar.

Julho de 2008

O mapa do tempo

Filed under: Em 2008,Língua Nacional — valentimrfagim @ 11:22 PM

Nacionalismo Banal é um termo criado por Michael Biling e que fai referência a todas aquelas acções que, sob o pano da normalidade, venhem a dizer-nos a que nação pertencemos. É a selecção nacional, o concurso de eurovisión, a bandeira nos ingredientes dos cereais… ou o mapa do tempo.

Apareça este em meios galegos ou em meios madrilenos permanece uma constante: sabemos se vai chover em Maiorca mas não no Porto, e isto apesar de que por cada estadia de um cidadão galego em Maiorca, há 100 visitas à cidade invicta. Não falemos já em Melilha ou em Ceuta…

O mapa do tempo já tanto invadiu a nossa retina, que nem muitas pessoas que se dizem nacionais galegas conseguem desprender-se do seu influxo hipnótico.

Recentemente dous cidadãos galegos estiveram na Assembleia da República portuguesa a falar da língua que nos une. O mais significativo, a meu ver, é que estiveram como galegos. Talvez por isto, o seguimento que se fixo na Galiza foi assim tão mesquinho e, o que é bem pior, alguns meios nacionais galegos não ofereceram um perfil lá muito genuíno.

O próximo ano vão decorrer os II Jogos da Lusofonia em… Lisboa (que seja dito de passagem fica mais perto que Maiorca) A questão que se coloca é: continuaremos encerrados no seu mapa do tempo ou aproveitaremos este evento para alimentar o nosso necessitado nacionalismo banal?

Maio 2008

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