Valentim R. Fagim

20/10/2010

A nossa sorte

Filed under: Xornal de Galicia — valentimrfagim @ 1:40 PM

Quando duas ou mais línguas compartilham o mesmo espaço social, é comum terem umha funcionalidade diferente. Tradicionalmente tem-se dado o nome de língua A àquela que ocupa o espaço central da sociedade e de língua B a que ocupa o lugar periférico. A língua A é a das elites, o código que se usa na administraçom, na escola, no exército, no mais moderno. A língua B é umha língua marcada, é a língua menos urbana, menos jovem, menos rica, menos cool.

Este processo, como é sabido, nom é estável mas dinámico. O inglês nom era cool durante a monarquia normanda. Era assim como se queixava um nobre inglês em 1298:

Se alguém nom sabe francês nom é tomado em consideraçom … Creio que nom existe nenhum país no mundo que nom adira à própria língua, a exceçom do da Inglaterra.

Podíamos deixar em branco onde aparece “Inglaterra” e preenchê-lo com quase todas as línguas do mundo nalgum momento da sua história.

É inusual que um idioma presente em vários países tenha o estatuto de língua A em todos eles. É frequente, no entanto, que todas as variedades de umha língua tenham estatuto de língua B, em grande medida, porque há pouco lugares para a língua A; a concorrência é dura. Outras vezes, no entanto, o que acontece é que a sorte acaricia umhas variedades e nom outras.

Sirvam algum exemplos. Houvo um momento da história em que o francês do Quebeque ou o neerlandês da Flandres eram línguas B. Hoje, o castelhano da Califórnia ou da Flórida som língua B mas nom o da Argentina ou o México. Enfim, o catalám de Valência é claro que nom tem o mesmo estatuto que o da Catalunha.

Para umha variedade com funcionalidade B é umha fortuna o facto de existirem variedades com funcionalidade A por diversas razões:

A primeira de tipo sociológico ao servir como modelo social. Se a minha língua noutro país funciona como Língua A, também o pode fazer no meu. Isto é importante porque sobre as línguas B se tece toda umha rede de expetativas negativas que impossibilitam sequer a vontade de mudar o estado de cousas. Quem nom tem ouvido com o sotaque mais genuíno: O galhegho é umha merda, nom vale para nada!

A segunda vantagem é de tipo formal. Quando a coexistência entre a língua A e B é duradoura, a segunda adopta elementos linguísticos da primeira, sendo o léxico a área mais afetada. Se ambas as línguas pertencem à mesma família linguística torna-se difícil discernir o que é material próprio do que é alheio. O facto de haver umha variedade com funcionalidade A permite fazer esse esclarecimento. Perante umha frase como esta «Que onda, entonces que? te wacho en la party? Recuerda que es no cover», um hispano-falante de S. Francisco é capaz de identificar o que é alheio com só pegar num dicionário de castelhano.

A terceira é de tipo funcional. Quando se quer promover umha língua de B para A é preciso fazer enormes investimentos. O plano de dotar os usuários da língua B de quase tudo aquilo de que desfrutam os usuários da língua A tem um preço e nom costuma ser barato. Pensemos em literatura universal, programas informáticos ou canais de televisom. O facto de existirem produtos que emanam da variedade com funcionalidade A tornam tudo muito mais fácil e… económico. Durante muitos anos o mercado de Portugal, onde a nossa língua é A, nom justificava as edições do Tio Patinhas ou do Conan e estas chegavam do Brasil (edições de que também usufruíamos alguns galegos e galegos com as mesmas carências).

A nossa sorte como galegos e galegas é que temos variedades que tivérom êxito e se tornaram línguas nacionais dos seus países. Um escritor romeno, Alexandru Vlahuta, dizia que a sorte é um acaso, e a felicidade umha vocaçom. Teremos vocaçom de ser felizes?

Anúncios

30/06/2010

Humor a sério

Filed under: Xornal de Galicia — valentimrfagim @ 12:48 PM

Numha recente entrevista em Vieiros, o seu diretor, Ramón Vilar, perguntava-me porque era preciso ser bem humorado na Galiza com o tema da língua. Na verdade, a língua nom é diferente de outros objetos de movimentaçom social (feminismo, ecologia, desigualdades sociais…) onde umha atitude jovial é um medicamento indispensável para nom escorregar para a desánimo.

Seja como for, eis alguns casos para abonar a necessidade do humor no que diz respeito da Língua na Galiza

Numha palestra que dei na universidade viguesa perguntei ao público (em volta de 70 pessoas de entre 18 e 25 anos) a quantas tinha coincidido um docente que lhes explicasse que podiam ler textos em português sem dificuldade só polo facto de saberem galego. Levantaram a mao 11 pessoas. Depois dizem que os galegos e as galegas temos a estima baixa. Nom admira, se nos escondem as nossas virtudes… é algo assim como se os massai, uns africanos altos que medem a sua potência dando saltos, nom soubessem que existe um desporto chamado basquete.

Umha estudante de origem jordana chega a Galiza com o propósito de se expressar em galego. Propósito encomiável nom fosse que os seus círculos sociais, quer sejam galego ou castelhano-falantes, teimam em lhe esconder a língua que quer aprender. Deve ser umha versom peculiar do jogo das agachadas. No entanto, afinal encontrou o que procurava, saiu-lhe um trabalho em Portugal…

Um dos debates mais acalorados em volta da nossa língua é se é a mesma ou é diferente que a que falam em Portugal e no Brasil. Na verdade, uns vivemo-la sendo a mesma e outros vivem-na sendo diferentes e haja paz. Ora, recentemente o melhor dicionário on-line de Portugal, o da Priberam, vem de incluir mil e tal entradas galegas fornecidas pola AGLP. Dá-se assim o primeiro caso mundial em que umha língua inclui no seu lexicon um lote de palavras de outra a priori diferente. Enfim, podemos continuar a discutir à brava ou podemos aproveitar a via que se abre.

O presidente da Galiza diz que o galego é maravilhoso porque comunicamos com 200 milhões de pessoas mas o certo é que somos poucos os que temos esse hábito saudável de comunicar tanto assim. Por quê? Talvez porque o nosso governo, a diferença do estremenho, nom considere o galego/português umha vantagem competitiva. Ainda bem que os massai nom som governados por pessoas deste género.

Umha última questom. Poda parecer que esteja a fazer um exercício retórico quando falo da necessidade do HUMOR. Nom é assim, estou a falar bem a SÉRIO.

22/02/2010

Eu ganho, tu ganhas.

Filed under: Xornal de Galicia — valentimrfagim @ 3:07 PM

A teoria dos jogos é umha aplicaçom das matemáticas que se utiliza para procurar estratégias racionais onde o resultado nom depende só de um agente mas da interacçom entre vários.

Há um classe de jogos em que o ganho de um agente repercute na mesma medida nas perdas de um outro. A maioria dos jogos de mesa que conhecemos respondem a este esquema: xadrez, parchisse, tute… assim como as apostas: se duas pessoas apostarem 100 euros, umha ganha 100 e outra perde 100. Este tipo de jogos denominam-se de Soma zero.

Também há jogos onde a soma é diferente de zero, podendo ser que perdam todos ou ganhem todos. Se um grupo de moradores de um edifício nom se pom de acordo para limpar as escadas, perdem todos. Se alcançarem um acordo, ganham todos.

Os debates por volta da identidade da nossa língua entre umha visom reduzida, língua apenas da Galiza, e umha outra ampla, língua da Galiza e também internacional, “parecem” responder ao esquema de soma zero.

Umha das reclamaçons dos que defendemos a visom ampla é o facto de os nossos direitos como cidadaos e cidadás serem menosprezados precisamente pola nossa focagem e a nossa prática. A contradiçom torna-se evidente se tomamos as palavras do presidente Feijoo:

“500 milhons de pessoas falam inglês; 400, castelám; e 200 milhons pertencem ao mundo lusófono. Em definitivo, se temos esses três idiomas podemos comunicar-nos praticamente em todo o mundo”.

A contradiçom é que precisamente as pessoas que nos “comunicamos” com umha comunidade de 200 milhons de pessoas vemos reduzidos os nossos direitos na nossa própria comunidade.

Quando nalguns países se fala dos direitos da mulher, um argumento recorrente é que um comunidade política nom pode prescindir de metade da populaçom. Igualmente a Galiza nom pode prescindir de um coletivo qualificado, vitalista e em expansom. Torna-se num jogo onde perdemos quase todos.

Como podíamos mudar a natureza do jogo?

A nossa inspiraçom podia ser a comunidade autónoma de Estremadura que, como sabemos, nom é o berço da lusofonia. Mesmo assim, os seus altos cargos tomárom a decisom de tornar o português, em suas palavras, numha aposta estratégica.

Esta aposta pode-se traduzir aqui na recepçom dos mass média, a presença no ensino (introduzi-la na ESO daria para garantir um CV com português nível alto), promover os produtos culturais brasileiros, portugueses, angolanos… assim como o direito dos “comunicadores” galegos e galegas a poder desenvolver-nos na mesma língua de “200 milhons de pessoas”.

Teríamos assim um jogo de soma diferente de zero onde eu ganho, tu ganhas e, o que é mais importante, os galegos e as galegas ganhamos.

18/01/2010

33% Logronho

Filed under: Xornal de Galicia — valentimrfagim @ 1:56 PM

Imaginemos um país com as seguinte características: temperatura média de 23º, poucos rios e escasso vento. Num momento dado o seu governo decide apostar nas energias renováveis. Após as pertinentes análises e deliberaçons, um comité de especialistas nomeado polo executivo decide investir 70% do orçamento em aerogeradores, 20% numha central hidráulica e 10% em painéis solares. Que pensaríamos de um governo assim?

Em geral as pessoas esperamos dos nossos governos, nomeadamente nas democracias ocidentais, que fagam a melhor gestom possível dos recursos e potencialidades do território e sociedade que administram.

O nosso governo vem de decidir que no ensino secundário 33% das aulas sejam em galego, 33% em castelhano e 33% em inglês.

Umha primeira questom que coloca dúvidas é o facto de as três línguas terem a mesma quota horária. Teria sentido se o domínio que os escolares galegos tenhem das três fosse o mesmo. Sabemos que nom é assim. O domínio vem dado em grande medida pola sua presença social. É mais fácil dominar umha língua ambiental que umha que nom tem presença no ambiente que nos rodeia. Assim sendo, sabemos que em muitas zonas urbanas a presença do castelhano nom é sensivelmente menor que a que poda ter em Logronho ou em Guayaquil. A presença do galego nessas mesmas zonas urbanas é sensivelmente insensível. A do inglês é residual.

Portanto se as linhas estratégicas que guiassem o nosso governo fossem a melhor gestom possível dos recursos e potencialidades do território e sociedade que administram, as percentagens teriam de ser diferentes. O galego teria de ter umha quota sensivelmente maior e nom só. Teria de haver horas dedicadas a garantir que o conhecimento passivo do português do Brasil e de Portugal, que tam útil foi para alguns galegos, fosse estruturalmente útil. O galego é um recurso que nom tenhem em Logronho para aproveitar a oportunidade da língua do Brasil e de Portugal. Oportunidade que passa polo facto de as pessoas que estám a ler este texto (capacidade passiva) tenham a capacidade de o escrever e o ler quer à brasileira, quer à portuguesa (capacidade activa). O seu Curriculum Vitae ia agradecê-lo.

Parece, no entanto, que o que guiou o nosso governo nom foi a melhor gestom, tecnicamente falando. Parece, polo contrário, que foi agradar certos grupos sociais internos e sobretudo externos assim como agradar-se a si próprio. Aerogeradores sem vento nom dam muito jeito. E vai tanto calor

(Janeiro 2010)

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.